Ceará

Tradição junina

Entrevista | “Patrimônio Cultural Imaterial é o reconhecimento que os grupos juninos merecem”

Renato Araújo conversou com BdF sobre a preparação dos festejos juninos e a importância de manter a tradição viva

Brasil de Fato | Fortaleza (CE) |

Ouça o áudio:

O São João é a expressão do povo nordestino na época da colheita. - Foto: Aline Oliveira

Durante os meses de junho e julho acontecem os tradicionais festejos juninos. E como o povo diz: este é o mês mais gostoso do ano. O colorido e as tradições são apresentados pelas quadrilhas, tem quermesse, fogueira, religiosidade e o cheiro de comida típica que já se espalha no ar. E para falar sobre a preparação de toda essa cultura e tradição, o Brasil de Fato conversou com Renato Araújo, da direção estadual do setor de juventude do MST e marcador do grupo junino Raízes do Sertão. Confira.

O que significa os festejos juninos para a cultura nordestina e brasileira?

O São João é a expressão do povo nordestino na época da colheita. São João tem origem com as fogueiras, as comidas típicas a partir do milho, então representa esse período das vivências do povo nordestino como um todo que por ser em época de colheita muitos se casavam. 

O São João traz esse resumo dessa vivência nordestina nesse período e que a gente vem mantendo aí por gerações, construindo ainda assim essa identidade camponesa, essa identidade nordestina a partir dessa festança que começou há bom tempo. É o resumo das nossas vivências enquanto nordestinos, enquanto povo que tem a sua identidade, que gosta de festa, que gosta de comida, que gosta de se casar, da sua religiosidade.

Você falou sobre o fortalecimento dessa cultura nordestina, mas os festejos juninos também ganharam outras regiões do Brasil. O que isso significa para você?

É saber que a gente conseguiu chegar para além da nossa região com a cultura que originalmente é nossa, mas que os outros estados também têm suas festas, que enxergaram a partir de uma cultura nossa, nordestina, e também se identificaram nela e estão construindo os seus arraiais, suas festas no mês de junho e julho. Também são estados que cultivam e estão comemorando essa festa junto com a gente.


O São João é a expressão do povo nordestino na época da colheita. / Foto: Aline Oliveira

Queria que você falasse um pouco sobre as competições de quadrilhas. Quais vão acontecer este ano no Ceará e se há alguma competição nacional também.

Tem algumas que já fazem parte do calendário de quem dança São João. Tem as municipais, que são puxadas pela Secretaria de Cultura dos municípios, que realiza seus festivais, seus arrais, são mais como incentivos aos grupos do município, mas tem também as competições a nível regional, ou então, de federações que organizam seus festivais. Este ano, a gente tem, olhando mais para o Ceará, o Circuito Sesc Junino, a nível de estado e nós temos também o tradicional Festejo Ceará Junino. Também tem festivais independente, organizados por organizações independentes e temos também, para além dos municípios, algumas regiões que se juntam e fazem seus arraiais.

E como é que funcionam essas competições?

Olhando mais para os dois, o Sesc e o Ceará Junino, tem as etapas regionais, nesse caso seria esse processo de peneira dos grupos até chegar à final. As etapas regionais, que aí se inscreve no mapa da cultura, que lá tem todas as informações. Você se inscreve e vai ser uma das quadrilhas que vai disputar esse campeonato. Aí tem todos os critérios a ser avaliado das quadrilhas e ele acontece nas macrorregiões do estado até chegar a fase estadual com os grupos que passaram por suas regiões para se apresentar no Festejo Ceará Junino e também no Sesc com todos por etapas regionais.

E este ano, as quadrilhas receberam algum tipo de incentivo por parte do governo?

A gente tem o Festejo Ceará Junino, que aí é o edital. A gente tem o próprio Sesc, que são esses incentivos, que a gente está dizendo em relação a participar dos festivais, na competição, quem ganhar recebe o valor, ou então, olhando para nós, sou do grupo junino Raízes do Sertão, a gente recebeu incentivo da Prefeitura para se apresentar no festival do município. Então isso acontece de acordo com o município.

E como é que é a preparação para tudo isso que acontece no mês de junho?

É muito corrido porque começa muito cedo. Não dá para achar que o São João acontece somente em junho, porque quem faz parte de um grupo junino sabe que começa bem antes. O processo do São João é tipo o processo do milho. A gente comemora a colheita do milho em junho, julho, mas ele é plantado lá em março, então a gente também tem esse processo de começar a ensaiar no começo do ano para chegar em junho ter aquele resultado dessa construção.

Tem muita demanda para a construção de toda essa cultura?

Tem. São João realmente tem muita coisa que você precisa pensar para que uma quadrilha possa entrar em quadra e se apresentar. Desde discutir tema, desde quando vai convidar jovens para dançarem no grupo. Então as demandas são muitas, ficar de olho nos editais, principalmente para os grupos menores que precisam desse fomento, construir coreografia, pensar marcadores, pensar os destaques. É muita coisa. 


Estima-se que mais de 4 mil pessoas passaram pelo Arraia da Reforma Agrária, no Ceará. / Foto: Nayara Ribeiro

E como é que funcionam as quadrilhas da Reforma Agrária? Tem alguma diferença? Queria que você explicasse um pouco sobre isso.

É um processo de auto-organização da juventude nos territórios da Reforma Agrária. É quando a gente coloca nossa juventude para pensar nossa cultura e se vê dentro dessa construção também. O que difere mais ou menos dos outros grupos, principalmente os grupos grandes, é que os grupos grandes têm muito dinheiro e a nossa a gente vai muito na garra mesmo para garantir a tradição, para garantir a cultura.

Uma questão também que a gente valoriza muito nos nossos grupos juninos são as temáticas. A gente ocupa o São João com temas muito pertinentes para nós enquanto o Movimento Sem Terra, de Reforma Agrária, mas também para toda a sociedade, aí a gente vai discutindo, construindo o processo de dança, mas também de como que a gente pode discutir a sociedade com esses jovens e discutir a sociedade a partir desse grupo de jovens, a partir de uma apresentação. E por exemplo, a Raiz do Sertão, nosso grupo, no ano passado veio com o tema da Educação do Campo, porque a nossa primeira escola de educação do campo do estado do Ceará estava completando 12 anos, então a gente veio colocar esse tema para a sociedade a partir de uma dança. Então é ocupar o São João com temas que são nossos para dialogar com a sociedade. É isso. O MST é isso.

E qual o tema do Raízes do Serão deste ano?

Este ano a gente vem com o tema “Virgem Maria e o Milagre da Fé”, discutindo, falando da religião do povo, principalmente nos nossos territórios. A Raízes do Sertão, no assentamento 25 de Maio, que é o assentamento que a nossa quadrilha faz parte, tem uma quadrilha infantil, a Quadrilha Brilho Junino que vem com o tema do Vaqueiro. É uma cultura muito forte do povo camponês.

A Secretaria Municipal da Cultura de Fortaleza iniciou o processo para que a capital cearense seja a primeira cidade do país a registrar as quadrilhas juninas como patrimônio cultural imaterial. O que isso representa?

Isso é o reconhecimento que os grupos juninos, que essa tradição merece. Patrimônio Cultural Imaterial é aquilo que é passado por gerações, onde a gente conserva a ideia inicial, mas que as novas gerações vão acrescentando também novos elementos. E o São João é isso. Então seria reconhecer o São João para além de uma expressão artística, para além de uma dança, para além de um espetáculo. É entender que o São João faz parte de uma identidade, faz parte da identidade do povo e que esse povo até hoje se identifica nessa expressão e mantém passando para outras gerações.

Para receber nossas matérias diretamente no seu celular clique aqui.

Edição: Camila Garcia