Bahia

Independência

"As mulheres participaram ativamente nas lutas pela independência", afirma pesquisadora

Historiografia, no entanto, registrou pouco as narrativas debravura feminina, afirma Mabel Freitas

Salvador |
Mabel Freitas destaca o papel de mulheres da capital e do interior nas lutas pela independência e também seu apagamento dos relatos oficiais - Arquivo pessoal

As mobilizações do 08 de Março neste ano na Bahia tiveram como tema o bicentenário da independência do Brasil na Bahia e o protagonismo das mulheres baianas nas batalhas e levantes que levaram à definitiva derrota de Portugal em 02 de Julho de 1923. Nesta entrevista, conversamos com Régia Mabel da Silva Freitas sobre essas mulheres, algumas cujos rostos e histórias começam a ser resgatados do apagamento histórico e outras tantas que ainda sequer chegamos a conhecer. Mulher preta feminista antirracista, como prefere ser apresentada, Mabel Freitas é também pós-doutora em Educação pela USP, doutora em Difusão do Conhecimento pela UFBA e pesquisadora de Relações Raciais.

Mabel, ano passado, o país celebrou o bicentenário da independência, mas a Bahia sempre faz a ressalva de que a independência do país só se concretizou mesmo no 2 de Julho de 1823, não é mesmo? Você poderia falar brevemente sobre a importância da Bahia nesse processo?
O quadro “Independência ou Morte” de Pedro Américo invisibiliza e desconsidera toda a bravura de reais Pretagonistas Ancestrais na luta contra a subjugação portuguesa. Com todo o respeito à liberdade artística, a realidade indubitavelmente não o inspirou. Como o Brasil se tornou uma valiosa colônia de Portugal, a vitória parcial ocorrida em 07 de setembro de 1822 foi “apenas” mais um capítulo de uma longa história repleta do movimento popular insubmisso, disruptivo e insurrecional de indígenas, escravizadas, escravizados, libertas e libertos entre outras e outros. Os invasores, subestimando o brilhantismo popular do Quartel Popular da Inteligência Baiana, continuaram atacando-nos durante muitos meses. Portanto, é imprescindível destacar a importância do 07 de janeiro de 1823 que culminou no recuo das tropas lusitanas após os quatro assaltos ininterruptos ocorridos na Ilha de Itaparica nos quais indígenas, marisqueiras e pescadores e demais populares lutaram com denodo criando armadilhas, ciladas e emboscadas utilizando como armas pedras, machados, facas, chunchos e até folhas de cansanção. Ademais, merece também realce o 02 de julho de 1823 – nosso histórico apogeu libertário – quando finalmente os marotos foram derrotados definitivamente após sangrentas batalhas nas nossas soteropolitanas trincheiras dos Aflitos, Campo da Pólvora, Carmo, Forte de São Pedro, Piedade, São Bento entre outros – isso tudo após as inesquecíveis lutas que as antecederam em Cabrito e Pirajá. Dessa forma, devemos comemorar o Bicentenário da nossa Independência em julho deste ano de 2023.

Qual a participação das mulheres nas lutas de independência da Bahia?
As mulheres participaram ativamente nas lutas pela independência, todavia lamentavelmente a historiografia brasileira pouco relata essa salutar narrativa da bravura feminina. Em primeiro lugar, insta salientar que participar de uma guerra não é “só” empunhar armas e derramar o sangue dos adversários; afinal ativismo político não é só matar e morrer. Assim, no mínimo, elas deram continuísmo ao provimento do lar com a ausência de seus respectivos cônjuges. Ademais, graças à inteligência, destreza em distintas áreas e coragem, muitas mulheres contribuíram para a nossa libertação atuando nos bastidores, contudo só exaltamos nominalmente três famosas heroínas – Joana Angélica, Maria Quitéria e Maria Felipa – que se expuseram em trincheiras bélicas. A sóror sexagenária Joana Angélica bravamente defendeu o Convento da Lapa da invasão de portugueses que entraram para capturar os soldados brasileiros e, mesmo sendo um sacrilégio matar uma freira, foi brutalmente assassinada. Maria Quitéria, conhecida entre o Batalhão dos Periquitos como Soldado Medeiros, vestiu-se com a roupa de soldado do cunhado, alistou-se e guerreou com muita engenhosidade na montaria e no manejo de armas. A astuta negra Maria Felipa, liderando mais de quarenta vedetas – mulheres sentinelas –, enfrentou as tropas lusitanas levando os soldados portugueses até a praia e, quando todos estavam despidos, achando que mais uma vez realizariam o tão corriqueiro estupro colonial, receberam uma surra de cansanção – folha que provoca ardência e coceira na pele – enquanto outras mulheres e também outros homens incendiavam as naus em pleno mar.

E não foram só mulheres da capital baiana que participaram das lutas, né?! Houve também participação de lideranças em mais cidades?
Inúmeras mulheres anônimas de distintas cidades baianas também contribuíram para a nossa tão almejada emancipação na triunfal batalha de Cachoeira além de Caetité, Chapada Diamantina, Denodada Vila de Itaparica, Maragogipe, Nazaré das Farinhas, Santo Amaro, São Francisco do Conde entre outros municípios. Gostaria muito de arrolar a plêiade feminina na qual a verve libertária pulsou com fervor, contudo são ainda nomes e rostos desconhecidos na nossa historiografia nacional. Consigo, entretanto, destacar além da natural de Feira de Santana Maria Quitéria e da itaparicana de Gameleira Maria Felipa, três vedetas que lutaram bravamente lideradas por ela lá nessa Ilha mais formosa do Brasil, a saber: Brígida do Vale, Joana Soaleira e Marcolina.


Quadro Alegoria ao 07 de Janeiro de 1823 de Mike Sam Chagas / Reprodução/Mov. Viva Ilha

Mabel, por que a gente precisa resgatar essa memória da participação das mulheres em atos históricos como estes?
Urge que os atos históricos – e principalmente os feitos heroicos – sejam finalmente apresentados numa perspectiva decolonial refutando a métrica colonialesca que é caucasiana, classista, heteronormativa, homo/transfóbica, misógina, racista e sexista. Não cabe mais perpetuar narrativas nas quais múltiplos grupos sociais – como as mulheres e, em especial, nós, as mulheres negras – sejam ainda invisibilizados e estereotipados sem o legítimo reconhecimento de que com muita maestria constituímos a brasilidade. De “mulher arruaceira” à “habilidosa combatente” e de “preta raivosa” à “destemida candace”, o caminho é árduo e longo para essa necessária quebra de paradigma que finalmente reconhece a importância da nossa beligerância feminina para exitosos episódios da história. Desejo que, a partir de agora, todas, todes e todos conheçamos, divulguemos e aplaudamos o quadro “Alegoria ao 07 de janeiro de 1823”, do Professor Mike Sam Chagas, da Escola de Belas Artes, da Universidade Federal da Bahia, que inspirado (desta vez!) pela realidade, retrata indígenas, negras e negros como ícones Pretagonistas Ancestrais que nos livraram da tirania portuguesa em Itaparica, uma bela Ilha da Bahia de Todos os Santos, Orixás, Voduns e Inquices.

Por que a gente, enquanto sociedade, escolhe “esquecer” da presença das mulheres na nossa história?
Nós nem escolhemos “esquecer”, visto que não nos foi dada a oportunidade de realizar essa seleção. A triagem proposital que conscienciosamente não difundiu a importância da genialidade feminina para as vitórias bélicas na nossa historiografia brasileira foi realizada anteriormente e, quando chegou até nós, meramente, socializou-se uma história na vilania do prisma patriarcal, composto por toques requintados de androcentrismo, proferida por vozes hegemônicas do sexismo, que se deliciam com o gosto amargo da misoginia e exalam na atmosfera o lamentavelmente tão naturalizado odor fétido de machismo estrutural.

 

Edição: Alfredo Portugal