Rio Grande do Sul

Coluna

Nicarágua: um testemunho feminista

Imagem de perfil do Colunistaesd
"O feminismo na Nicarágua surgiu a partir da numerosa participação de mulheres no processo revolucionário nos anos 1970 e 1980, cresceu e se fortaleceu no pós-revolução" - Foto: Isayara López/Onda Local
Nicarágua vive uma escalada repressiva só comparável com a época da ditadura dos Somoza

Sou nicaraguense da geração que nasceu durante a Revolução Sandinista. Carrego a Nicarágua em mim, enquanto vivo no Sul do Brasil. Na última vez que estive lá, em março de 2018, conversei com minha amiga Tamara, sobre os rumos possíveis da política no país.

Ela me disse que, depois de muitos anos apostando na via de organização autônoma feminista e na atuação em ONGs, tinha decidido se envolver mais ativamente na política partidária. Sua aposta era no Movimento Renovador Sandinista (MRS), surgido no final dos anos 1990 a partir de uma ruptura com a Frente Sandinista (FSLN). Perguntei sobre esse partido ter sido cassado juridicamente há algum tempo, e me lembro do olhar profundo dela me dizendo: “estamos num limite em relação à ditadura do governo atual. Eles se apropriaram de tudo, estão acabando com a institucionalidade e todos os direitos. Mesmo que não tenhamos espaço eleitoral, é um jeito de denunciar e de marcar posição”.

Um mês depois desse encontro, já de volta ao Brasil, soube da repressão desenfreada a protestos populares na Nicarágua. Pelas redes sociais, acompanhei o rápido aumento do número de mortos, em poucos dias, sentindo uma angústia, sem poder compartilhar porque aqui quase ninguém sabe da existência do nosso país.

A Nicarágua convulsionou ao longo de meses: jovens ocuparam universidades, camponeses bloquearam as principais estradas, em diversas cidades surgiram barricadas de pessoas autoconvocadas, em protestos pacíficos exigindo a renúncia do presidente Daniel Ortega, no poder desde 2007.

A escalada de violência veio por parte da repressão: entre abril e agosto, mais de 350 pessoas foram assassinadas por forças policiais e grupos paramilitares vinculados à FSLN. Além das mortes, aconteceram incontáveis violações a direitos humanos, e apesar de que em agosto de 2018 iniciou uma tentativa de diálogo e conciliação, a crise política, social e econômica vem se arrastando desde então.

O feminismo na Nicarágua surgiu a partir da numerosa participação de mulheres no processo revolucionário nos anos 1970 e 1980, cresceu e se fortaleceu no pós-revolução, atuando em várias frentes, urbanas e rurais, pautando lutas contra direitos ameaçados por governos liberais. As feministas acolheram a denúncia de abuso sexual que a enteada de Daniel Ortega expôs em 1997, e há anos questionam a deriva autoritária e conservadora da FSLN que, por exemplo, em 2006 pactuou com setores religiosos para aprovar a criminalização total do aborto.

Tamara é uma mulher de minha geração, ambas viemos de famílias profundamente comprometidas com a Revolução Sandinista. Crescemos marcadas por essa herança e nos envolvemos desde jovens no potente ativismo feminista nicaraguense. Em junho deste ano, ela foi arrancada violentamente de sua casa, onde estava com sua filha de cinco anos, e até hoje não pôde ser vista por sua família ou advogados.

Esta é a situação também de mais de 30 pessoas sequestradas pela polícia desde então, entre as quais, os sete pré-candidatos presidenciais da oposição, ativistas, empresários, jornalistas e ex-guerrilheiros. Nenhuma delas têm direito a defesa, pois pela lei atual, aprovada pela Assembleia dominada pela FSLN, qualquer pessoa pode ser presa por 90 dias “para investigação”. Elas se somam aos mais de 120 presos políticos dos anos anteriores, número que aumenta toda semana, o que está levando muitas pessoas a se esconder ou a se exilar.

A poucos meses das eleições, previstas para novembro, a Nicarágua vive uma escalada repressiva só comparável com a época da ditadura dos Somoza, aquela que o povo nicaraguense derrotou em 1979. Por tudo isso, não aceitamos que a família Ortega-Murillo, e todos aqueles que se encastelaram no poder através da estrutura da FSLN nas últimas décadas, sequestrem a memória da Revolução e a utilizem para se blindar das críticas, refugiando-se em um discurso anti-imperialista para esconder a essência de seu projeto de poder, de caráter familiar, populista, autoritário, mas também profundamente conservador e neoliberal.  

* Ana Marcela Sarria e Ana Mercedes Sarria - Sociólogas e nicaraguenses residentes no Rio Grande do Sul desde 1995.

** Este é um artigo de opinião. A visão das autoras não necessariamente expressa a linha editorial do jornal Brasil de Fato.

Edição: Katia Marko