Ceará

Cotidiano

Crônica | Lista de sobrevivência para tempos sombrios

Escutei álbuns novos por inteiro, li poemas e romances, assisti filmes, dancei, respirar pela arte o ar que a realidade

Brasil de Fato | Fortaleza (CE) |
"A possibilidade de estar em isolamento, tem de ser vista como estratégia de luta e não como egoísmo burguês" - Reprodução

O mês de março, para mim, foi de longe o pior mês desde o início dessa distopia genocida que vivemos. Foi o mês que iniciou tudo de novo e de modo mais drástico: número de mortes absurdos e desumanos; completou um ano da última vez que vi minha mãe, nunca passei tanto tempo sem vê-la. Mesmo período que não vejo nenhum dos meus irmãos, afilhada e sobrinho. E muito além dessas pequenas questões individuais, teve todo o peso da exaustão coletiva que nos encontramos, é um sufocamento levado às últimas consequências, é desemprego, fome, violência e mortes. São mais de quatro mil mortes por dia, causadas por covid-19. 

Sobrevivi a março e todos esses dias insuportáveis por conta do apoio, afeto e camaradagem que recebi dos meus amores: companheiro, família, amigas e amigos. E, também de um pequeno esquema que montei para não sucumbir totalmente ao desalento: 

1.    Me afastei das redes sociais, manter-me informada é importante e necessário, mas ser bombardeada com informações vazias só estava me deixando mais exausta e desenganada com o futuro.
2.    Escutei álbuns novos por inteiro, li poemas e romances, assisti filmes, dancei, respirar pela arte o ar que a realidade nos nega
3.    Comecei treinar Muay Thai em casa com meu companheiro, exercício físico é bom mesmo, e é algo muito além de proporcionar emagrecimento.
4.    Chorei muito e várias vezes, essa falsa propagação de felicidade em que nos vermos submersos é uma tortura, como diria o André Abujamra “cem por cento que agonia, ninguém é só alegria”. É preciso dar tempo a dor e ao choro para vir, se instalar, ser sentido e depois ir embora.
5.    Estar organizada na militância coletiva, em janeiro de 2021 entrei para o Coletivo Feminista Classista Ana Montenegro, e essa tem sido uma das principais fontes de força e determinação que tenho tido para estar atenta e forte nesses tempos cinzas. Gratas camaradas!
6.    Estudei e continuo estudando, porque para a luta revolucionária é necessário preparação prática e intelectual, e se tenho possibilidades, tenho responsabilidade para com a minha classe.

Isso é o que de forma mais ampla tem funcionado para mim, que estou tendo a vantagem de poder estar isolada, recebendo salário que possibilita garantir minha sobrevivência sem ter de escolher entre a fome ou me pôr em risco de vida. Nem de longe é a situação da maioria da classe trabalhadora que diariamente não tem como se proteger minimamente da exposição ao vírus e aos ditames desse governo assombroso. 

Quem, como eu, está entre a parcela da classe trabalhadora que pode manter-se seguro e em casa, anseio que organize os meios e encontre formas de se manter firme, e que logo, logo sendo nossa a vez de sair as ruas, estejamos juntos na luta. Se organizar e lutar pela classe que está sendo exterminada nesses dias e que não tem como enfrentar esse governo genocida é o grito dos nossos tempos. 

A possibilidade de estar em isolamento, tem de ser vista como estratégia de luta e não como egoísmo burguês. Parafraseando o Chico Buarque “que estejamos nos guardando para quando a vacina chegar” camaradas, que estejamos prontos para a luta que se avizinha.

Essa pandemia, esse governo tenebroso, esses dias de tristeza e solidão infinitas, hão de passar! Não por sorte ou destino, mas pela organização da luta coletiva da classe trabalhadora, como o foi até a aqui! Viva o SUS, conquista de nossa classe! Vacina para toda a população! Viva a revolução!  

Firmes! 
 

Edição: Monyse Ravena